Regra não Bulada

 Introdução

Às vezes também é chamada de Primeira Regra , deixando-se o nome de Segunda Regra para o que estamos denominando Regra Bulada. Na verdade, não foi a primeira. Alguns chamam de Proto-regra ou Regra Primitiva a que foi aprovada por Inocêncio III em 1210. A Regra não bulada é a versão final que resultou em 1221, depois que os capítulos gerais foram acrescentando modificações à Regra Primitiva, para se adequar à vida de uma fraternidade que não parava de crescer. É o maior dos escritos de São Francisco. Ele é certamente o autor, mas teve ampla colaboração de todos os frades reunidos nos capítulos gerais. Trata-se de um documento vivo, ardoroso, cheio de orações e de citações bíblicas. É imprescindível para se conhecer o pensamento de Francisco e de seus primeiros companheiros sobre a Ordem que estava começando. 

 Prólogo

1. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo!

2. Esta é a vida do Evangelho de Jesus Cristo, que Frei Francisco pediu que lhe fosse concedida e confirmada pelo senhor Papa. E ele o concedeu e confirmou para si e seus frades, presentes e futuros.

3. Frei Francisco e todo o que for cabeça desta religião, prometa obediência e reverência ao senhor Papa Inocêncio e a seus sucessores.

4. E todos os outros frades estejam obrigados a obedecer a Frei Francisco e a seus sucessores.

Capítulo 1

Que os frades devem viver sem próprio e em castidade e obediência

1. A regra e vida destes frades é esta, a saber, viver em obediência, em castidade e sem próprio, e seguir a doutrina e os vestígios de nosso Senhor Jesus Cristo, que diz:

2. "Se queres ser perfeito, vai e vende tudo (cfr. Lc 18,22) que tens, e dá aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem, segue-me" (Mt 19,21).

3. E: "Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo e tome a sua cruz e me siga" (Mt 16,24).

4. Do mesmo modo: "Se alguém quer vir a mim e não odeia pai e mãe e mulher e filhos e irmãos e irmãs, e também sua própria vida, não pode ser meu discípulo" (Lc 14, 26).

5. E: "Todo aquele que deixar pai ou mãe, irmãos ou irmãs, esposa ou filhos, casas ou campos por causa de mim, receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna" (Mt 19,29; Mc 10,29; Lc 18,29).

 Capítulo 2

Da recepção e vestes dos frades

1. Se alguém, querendo por inspiração divina receber esta vida, vier aos nossos frades, seja benignamente recebido por eles.

2. E se estiver firme para receber nossa vida, guardem-se muito os frades de intrometer-se em seus negócios temporais, mas o reapresentem logo que puderem ao seu ministro.

3. O ministro, porém, receba-o benignamente e o conforte, e lhe exponha diligentemente o teor de nossa vida.

4. Feito isso, o predito, se quiser e puder espiritualmen-te sem impedimento, venda tudo que é seu e procure dar tudo aos pobres.

5. Guardem-se os frades e o ministro dos frades de se intrometer de modo algum em seus negócios

6. E não recebam pecúnia alguma nem por si nem por pessoa intermediária.

7. Mas, se precisarem, podem os frades receber outras coisas necessárias para o corpo, menos dinheiro, por causa da necessidade, como os outros pobres.

8. E quando tiver voltado, o ministro conceda-lhe os panos da provação para um ano, isto é, duas túnicas sem capuz e o cíngulo e as bragas e um caparão até o cíngulo.

9. Mas acabado o ano e término da provação, seja recebido na obediência.

10. Depois não lhe será lícito entrar em outra religião nem "vagar fora da obediência" de acordo com o mandato do senhor papa e segundo o evangelho; porque "ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o reino de Deus" (Lc 9,62).

11. Mas se vier algum que não pode dar seus bens sem impedimento e tem vontade espiritual, deixe-os e lhe baste.

12. Ninguém seja recebido contra a forma e a instituição da santa Igreja.

13. Mas os outros frades que prometeram obediência tenham uma túnica com capuz e outra sem capuz, se for necessário, e o cíngulo e as bragas.

14. E todos os frades vistam-se de roupas vis e possam remendá-las com sacos e outros retalhos com a bênção de Deus, porque diz o Senhor no evangelho: "Os que estão em vestes preciosas também estão em delícias" (Lc 7,25) e "os que se vestem de moles estão nas casas dos reis" (Mt 11,8).

15. E mesmo que os chamem de hipócritas, todavia não deixem de fazer o bem nem procurem roupas caras neste século, para poderem ter um vestimento no reino dos céus.

Capítulo 3

Do ofício divino e do jejum

1. Diz o Senhor: Este tipo de demônios não pode sair senão com jejum e oração (cfr. Mc 9,28);

2. E ainda: "Quando jejuardes não vos façais tristes, como os hipócritas" (Mt 6,16).

3. Por isso todos os frades, tanto clérigos como leigos, façam o ofício divino, os louvores e as orações, conforme o que devem fazer.

4. Os clérigos façam o ofício e rezem pelos vivos e pelos mortos segundo o costume dos clérigos.

5. E pelos defeitos e negligências dos frades digam todo dia Miserere mei Deus (Sl 50) com o Pai nosso;

6. E pelos frades defuntos digam De profundis (Sl 129) com o Pai nosso.

7. E só podem ter os livros necessários para cumprir seu ofício.

8. E também aos leigos que sabem ler o saltério seja permitido tê-lo.

9. Mas aos outros que não sabem letras não seja permitido ter livro.

10. Os leigos digam o Credo in Deum e vinte e quatro Pater noster com Gloria Patri pelas matinas; e por laudes, cinco; por prima Credo in Deum e sete Pater noster com Gloria Patri; por sexta e noa e cada hora sete, por vésperas doze; por completas Credo in Deum e sete Pater noster com Gloria Patri; pelos mortos sete Pater noster com requiem aeternam; e pelos defeitos e negligências dos frades três Pater noster todos os dias.

11. E igualmente todos os frades jejuem da festa de Todos os Santos até o Natal e da Epifania, quando nosso Senhor Jesus Cristo começou a jejuar até a Páscoa.

12. Mas em outros tempos não sejam obrigados a jejuar segundo esta vida a não ser na sexta-feira.

13. E seja-lhes licito comer de todos os alimentos que lhes são servidos, segundo o evangelho (cfr. Lc 10,8).

Capítulo 4

Do ministros e dos outros frades, como se organizam

1. Em nome do Senhor!

2. Todos os frades que são constituídos ministros e servos dos outros frades, coloquem seus frades nas províncias e lugares em que estiverem, e sempre os visitem e admoestem espiritualmente e confortem.

3. E todos os meus outros frades benditos obedeçam-lhes diligentemente no que diz respeito à salvação da alma e não é contrário à nossa vida.

4. E ajam entre si como diz o Senhor: "Tudo que quereis que os homens vos façam, fazei-o para eles": (Mt 7,12;

5. E "o que não queres que te façam, não faças ao outro" (Tb 4,16).

6. E lembrem os ministros e servos que diz o Senhor: "Não vim para ser servido mas para servir" (Mt 20,28) e que lhes foi confiada a solicitude pelas almas dos frades, dos quais, se algo se perder por sua culpa e mau exemplo, no dia do juízo terão que dar contas (cfr. Mt 12,36), diante do Senhor Jesus Cristo.

 Capítulo 5

Da correção dos frades em pecado

1. Portanto guardai vossas almas e as dos vossos frades; porque "é horrível cair nas mãos do Deus vivo" (Hb 10,31).

2. Por isso se algum dos ministros desse ordem a algum dos frades contra nossa vida ou contra sua alma, não terá que obedecer-lhe; porque não é obediência essa em que se comete delito ou pecado.

3. Entretanto, todos os frades que estão sob os ministros e servos, considerem os feitos dos ministros e servos racional e diligentemente,

4. E se virem que algum deles caminha carnal e não espiritualmente, em vez da retitude de nossa vida, se não se emendar depois da terceira admoestação, denunciem-no no capítulo de Pentecostes ao ministro e servo de toda a fraternidade, sem que o impeça nenhuma contradição.

5. Mas se entre os frades, onde quer que seja, houver algum frade que queira andar carnal e não espiritualmente, os frades, com os quais está, avisem-no, instruam e corrijam humilde e diligentemente.

6. E se ele, depois da terceira admoestação, não quiser se emendar, mandem-no o mais depressa que puderem ou avisem seu ministro e servo, o qual ministro e servo faça dele como, segundo Deus, melhor lhe parecer conveniente.

7. E guardem-se todos os frades, tanto ministros e servos como os outros, de perturbar-se ou irar-se pelo pecado ou mal do outro, porque o diabo quer corromper muitos pelo delito de um;

8. Mas, espiritualmente, como melhor puderem, ajudem o que pecou, porque não precisam de médico os sãos mas os que estão mal (cfr. Mt 9,12 com Mc 2,17).

9. Semelhantemente, todos os frades não tenham nisso poder ou domínio entre si.

10. Pois, como diz o Senhor no evangelho: "Os príncipes dos povos os dominam, e os que são maiores exercem poder sobre eles", (Mt 20,25), mas não será assim entre os irmãos (cfr. Mt 20,26);

11. E todo que quiser entre eles ser o maior seja seu ministro (cfr. Mt 20,26) e servo;

12. E quem é o maior entre eles faça-se como o menor (Lc 22,26). 13 E nenhum frade faça mal ou fale mal ao outro;

14. Antes, pela caridade do espírito, sirvam e obedeçam uns aos outros (cfr. Gl 5,13).

15. E esta é a verdadeira e santa obediência de nosso Senhor Jesus Cristo.

16. E todos os frades, quantas vezes se desviarem dos mandatos do Senhor e vagarem fora da obediência, como diz o profeta (Sl 118,21), saibam que são malditos fora da obediência enquanto estiverem em tal pecado cientemente.

17. E quando perseverarem nos mandatos do Senhor, que prometeram pelo santo evangelho e por sua vida, saibam que estão na verdadeira obediência, e são abençoados pelo Senhor.

Capítulo 6

Do recurso dos frades aos ministros e que nenhum frade se chame prior

1. Os frades, em qualquer lugar que estão, se não podem observar nossa vida, logo que puderem, recorram a seu ministro, manifestando isso.

2. Mas o ministro procure provê-los de tal maneira, como ele mesmo quisera que se lhe fizesse, se estivesse em caso semelhante.

3. E nenhum se chame prior, mas em geral todos se chamem frades menores.

4. E um lave os pés do outro (cfr. Jo 13,14).

Capítulo 7

Do modo de servir e de trabalhar

1. Todos os frades, em qualquer lugar em que estiverem em casa de outros para servir ou trabalhar, não sejam mordomos nem chanceleres nem estejam à frente das casas em que servem; nem recebam algum emprego que cause escândalo ou produza detrimento para sua alma (cfr. Mc 8,36);

2. Mas sejam menores e submissos a todos que estão na mesma casa.

3. E os frades, que sabem trabalhar, trabalhem e exerçam o mesmo ofício que sabem, se não for contra a salvação da alma e puder ser feito honradamente.

4. Pois diz o profeta: "Comerás os trabalhos dos teus frutos; és feliz e estarás bem" (Sl 127,2);

5. E o apóstolo: "Quem não quer trabalhar, não coma" (cfr. 2Ts 3,10);

6. E Cada um fique na arte e ofício em que foi chamado (cfr. 1Cor 7,24).

7. E pelo trabalho possam receber tudo que for necessário, menos dinheiro.

8. E quando for necessário, vão pela esmola como os outros pobres.

9. E possam ter ferramentas e instrumentos convenientes para seus ofícios.

10. Todos os frades esforcem-se por suar em boas obras (S Greg M Hom 13 in Ev.), porque está escrito: Faz sempre alguma coisa boa, para que o diabo te encontre ocupado (S Jeron Ep 125,11).

11. E ainda: "A ociosidade é inimiga da alma" (S Bern Reg 48,1).

12. Por isso os servos de Deus devem insistir sempre na oração ou em alguma obra boa.

13. Guardem-se os frades, onde quer que estejam, em eremitérios ou outros lugares, de apropriar-se de lugar algum ou de impedi-lo a alguém.

14. E quem quer que venha a eles, amigo ou adversário, ladrão ou assaltante, receba-se benignamente.

15. E onde quer que estejam os frades e onde quer que se encontrem, devem voltar a ver-se e honrar-se espiritual e diligentemente "mutuamente sem murmuração" (1Pd 4,9).

16. E cuidem de não se mostrar tristes por fora e sombrios hipócritas; mas se mostrem alegres no Senhor (cfr. Fl 4,4) e bem humorados e convenientemente amáveis.

Capítulo 8

Que os frades não recebem pecúnia

1. Manda o Senhor no evangelho: Olhai, guardai-vos de toda malícia e avareza (cfr. Lc 12,15);

2. E Guardai-vos da solicitude deste século e dos cuidados desta vida (cfr. Lc 21,34).

3. Por isso nenhum dos frades, onde quer que esteja e onde quer que vá, de modo algum tome, nem receba nem faça receber pecúnia ou dinheiro nem por pretexto de roupas nem de livros nem pelo preço de algum trabalho, mesmo em nenhuma ocasião, a não ser por manifesta necessidade dos frades doentes; porque não devemos ter e calcular maior utilidade na pecúnia e no dinheiro que nas pedras.

4. E o diabo quer cegar os que a cobiçam ou a calculam melhor do que as pedras.

5. Guardemo-nos, portanto, os que deixamos tudo (cfr. Mt 19,27), para não perder por tão pouco o reino dos céus.

6. E se em algum lugar encontrarmos dinheiro, não nos preocupemos com ele, como do pó que calcamos com os pés, porque "vaidade das vaidades e tudo vaidade" (Eclo 1,2).

7. E se por acaso, longe disso, acontecer de algum frade recolher ou ter dinheiro, excetuando apenas a predita necessidade dos doentes, todos os frades o tenhamos como falso frade e apóstata e ladrão e assaltante, e que tem a bolsa (cfr. Jo 12,8), a não ser que se penitencie de verdade.

8. E de nenhum modo os frades recebam ou façam receber pecúnia como esmola nem dinheiro para algumas casas ou lugares; nem vão com pessoa que pede pecúnia ou dinheiro para tais lugares;

9. Mas os frades podem fazer nos lugares outros serviços que não são contrários a nossa vida, com a bênção de Deus.

10. Entretanto, em manifesta necessidade dos leprosos, os frades podem pedir esmola para eles.

11. Mas guardem-se muito do dinheiro.

12. Do mesmo modo guardem-se os frades de circular pelas terras por algum lucro torpe.

 Capítulo 9

Do pedir esmolas

1. Todos os frades se empenhem em seguir a humildade e a pobreza de nosso Senhor Jesus Cristo e lembrem que não convém termos mais nada do mundo inteiro, senão, como diz o apóstolo, tendo alimentos e com que nos cobrir, com isso estamos contentes (cfr. 1Tm 6,8).

2. E devem alegrar-se quando convivem com pessoas vis e desprezadas, com pobres e fracos e doentes e leprosos e os que mendigam à beira da estrada.

3. E quando for necessário vão pela esmola.

4. E não se envergonhem, antes lembrem que nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus vivo (Jo 11,27) onipotente, pôs sua face como uma pedra duríssima (Is 50,7), e não se envergonhou;

5. E foi pobre e hóspede e viveu de esmolas, ele e a bem-aventurada Virgem e os seus discípulos.

6. E quando as pessoas os envergonharem e não quiserem dar-lhes esmola, dêem por tudo isso graças a Deus; porque pela vergonha vão receber grande honra diante do tribunal de nosso Senhor Jesus Cristo.

7. E saibam que a vergonha não se imputa aos que a sofrem mas aos que a causam.

8. E a esmola é a herança e justiça que se deve aos pobres, e foi adquirida para nós por nosso Senhor Jesus Cristo.

9. E os frades que trabalham para adquiri-la terão uma grande recompensa e fazem ganhá-la e adquiri-la os que a dão; porque tudo que os homens vão deixar no mundo vai perecer, mas pela caridade e as esmolas que fizeram terão prêmio da parte do Senhor.

10. E com segurança manifeste um ao outro sua necessidade, para que encontre o que lhe é necessário e o sirva.

11. E cada um ame e nutra seu irmão, como a mãe ama e nutre seu filho (cfr. 1Ts 2,7), naquilo em que Deus lhe der a graça.

12. E "o que não come, não julgue o que come" (Rm 14,3).

13. E quando quer que sobrevenha a necessidade, seja lícito a todos os frades, onde quer que estejam, usar todos os alimentos que as pessoas podem comer, como diz o Senhor de Daví, que comeu os pães da proposição (cfr. Mt 12,4), que não era lícito comer senão aos sacerdotes (Mc 2,26).

14. E lembrem o que diz o Senhor: Guardai-vos de que por acaso se sobrecarreguem os vossos corações na crápula e na bebedeira e nos cuidados desta vida e sobrevenha de repente para vós aquele dia;

15. Pois sobrevirá como um laço para todos os que habitam sobre a face do orbe da terra (cfr. Lc 21,34-35).

16. Semelhantemente, também em tempo de manifesta necessidade façam todos os frades o que lhes for necessário, como Deus lhes der a graça, porque a necessidade não tem lei.

Capítulo 10

Dos frades doentes

1. Se algum dos frades cair em enfermidade, onde quer que esteja, os outros frades não o deixem, mas se designe um frade, ou mais, se for necessário, que o sirvam, como quereriam ser servidos;

2. mas em necessidade extrema podem entregá-lo a alguma pessoa que deva satisfazer por sua enfermidade.

3. E rogo ao frade doente que dê graças por tudo ao Criador; e que deseje estar tal qual o Senhor o quer, são ou doente, por-que todos os que Deus predestinou para a vida eterna (cfr. At 13,48), instrui-os com os flagelos e aguilhões das doenças com espírito de compunção, como diz o Senhor: "Eu corrijo e castigo os que amo" (Ap 3,19).

4. E se alguém se perturbar ou irritar, seja contra Deus, seja contra dos frades, ou se acaso pedir solicitamente remédios desejando demais libertar a carne que logo vai morrer, que é inimiga da alma, isso lhe vem do mau e é um carnal, e não parece ser um dos frades, porque ama mais o corpo do que a alma.

 Capítulo 11

Que os frades não blasfemem nem detraiam, mas se amem mutuamente

1. E todos os frades guardem-se de caluniar e de contender com palavras (cfr. 2Tm 2, 14),

2. Antes esforcem-se por guardar silêncio, sempre que Deus lhes conceder a graça.

3. Nem litiguem entre si nem com outros, mas procurem responder humildemente dizendo: Sou um servo inútil (cfr. Lc 17,10).

4. E não se irritem, porque todo que se irrita com seu irmão será réu de juízo; o que disser a seu irmão: raca, será réu do conselho; o que disser: louco, será réu da geena de fogo (Mt 5,22).

5. E amem-se mutuamente como diz o Senhor: "Este é o meu preceito, que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei" (Jo 15,12).

6. E mostrem pelas obras (cfr. Tg 2,18) o amor que têm mutuamente, como diz o apóstolo: "Não amemos de palavra nem de língua, mas por obra e de verdade" (1Jo 3,18).

7. E não blasfemem contra ninguém (cfr. Tt 3,2);

8. Não murmurem, não detraiam os outros, porque está escrito: Os murmuradores e detratores são odiosos para Deus (cfr. Rm 1,29).

9. E sejam modestos, demonstrando toda mansidão para com todos os homens (cfr. Tit 3,2);

10. Não julguem, não condenem.

11. E, como diz o Senhor, não considerem os pequeninos pecados dos outros (cfr. Mt 7,3; Lc 6,41),

12. Antes repensem mais os seus na amargura de sua alma (Is 38,15).

13. E lutem para entrar pela porta estreita (Lc 13,24) porque diz o Senhor: “Estreita é a porta e áspero o caminho que leva à vida; e são poucos os que o encontram (Mt 7,14).

 Capítulo 12

Dos maus olhares e do trato com as mulheres

1. Todos os frades, onde quer que estão ou vão, guardem-se dos maus olhares e da freqüência das mulheres.

2. E ninguém se aconselhe com elas ou vá sozinho pelo caminho ou coma à mesa no mesmo prato.

3. Os sacerdotes falem honestamente com elas ao dar a penitência outro conselho espiritual.

4. E nenhuma mulher, absolutamente, seja recebida à obediência por um frade, mas, dado o conselho espiritual, faça penitência onde quiser.

5. E todos guardemo-nos muito e tenhamos puros todos os nossos membros, porque diz o Senhor: "Quem olhar uma mulher para desejá-la, já adulterou com ela em seu coração" (Mt 5,28).

6. E o apóstolo: Será que ignorais que vossos membros são templo do Espírito Santo? (cfr. 1Cor 6,19); portanto, quem violar o templo de Deus, Deus o destruirá (1Cor 3,17).

Capítulo 13

De evitar a fornicação

1. Se algum dos frades, instigando-o o diabo, fornicar, seja despojado do hábito, que perdeu por sua torpe iniqüidade, e o deixe totalmente e seja absolutamente expulso de nossa religião.

2. E depois faça penitência dos pecados (cfr. 1Cor 5,4-5).

Capítulo 14

Como os frades devem ir pelo mundo

1. Quando os frades vão pelo mundo, nada levem pelo caminho, nem (cfr. Lc 9,3) bolsa (cfr. Lc 10,4) nem alforje, nem pão, nem pecúnia (cfr. Lc 9,3), nem bastão (cfr. Mt 10,10).

2. E em cada casa em que entrarem, digam primeiro: Paz a esta casa (cfr. Lc 10,5).

3. E permanecendo na mesma casa, comam e bebam o que há lá com eles (cfr. Lc 10,7).

4. Não resistam ao malvado (cfr. Mt 5,39), mas ao que lhes bater em uma face, ofereçam também a outra (cfr. Mt 5,39 e Lc 6,29).

5. E ao que lhes tira o manto, não lhe proíbam também a túnica (cfr. Lc 6,29).

6. Dêem a todo que lhes peça; e ao que lhes toma o que é seu, não o reclamem (cfr. Lc 6,30). 

Capítulo 15

Que os frades não andem a cavalo

1. Imponho a todos os meus frades, tanto clérigos como leigos, que vão pelo mundo ou que moram nos lugares, que de nenhum modo tenham consigo algum animal.

2. Nem lhes seja permitido cavalgar, a menos que sejam obrigados por enfermidade ou grande necessidade. 

Capítulo 16

Dos que vão entre os sarracenos e outros infiéis

1. Diz o Senhor: "Eis que eu vos envio como ovelhas no meio de lobos.

2. Sede portanto prudentes como as serpentes e simples como as pombas" (Mt 10,16).

3. Por isso qualquer frade que quiser ir entre sarracenos e outros infiéis, vá com a licença de seu ministro e servo.

4. O ministro dê-lhes a licença e não contradiga, se os vir idôneos para serem mandados; pois deverá prestar contas a Deus (cfr. Lc 18,2) se nisso ou em outras coisas proceder indiscretamente.

5. Mas os frades que vão, podem comportar-se espiritualmente entre eles de dois modos.

6. Um modo é que não façam nem litígios nem contendas, mas estejam submetidos a toda criatura humana por Deus (1Pd 2,13) e confessem que são cristãos.

7. Outro modo é que, quando virem que agrada ao Senhor, anunciem a palavra de Deus, para que creiam em Deus onipotente, Pai e Filho e Espírito Santo, criador de tudo, no Filho redentor e salvador, e que sejam batizados e se tornem cristãos, por-que quem não renascer da água e do Espírito Santo não pode entrar no reino de Deus (cfr. Jo 3,5).

8. Estas e outras coisas, que agradarem ao Senhor, podem dizer a eles e a outros, porque diz o Senhor no evangelho: "Todo que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus" (Mt 10,32).

9. E "Quem se envergonhar de mim e de minhas palavras, também o Filho do homem o envergonhará quando vier na majestade sua e do Pai e dos anjos" (cfr. Lc 9,26).

10. E todos os frades, onde quer que estão, lembrem que se deram e cederam seus corpos ao Senhor Jesus Cristo.

11. E por seu amor devem se expor aos inimigos tanto visíveis como invisíveis; porque diz o Senhor: "Quem perder a sua alma por mim, vai salvá-la (cfr. Lc 9,24) para a vida eterna" (Mt 25,46).

12. "Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus" (Mt 5,10).

13. "Se me perseguiram, perseguirão também a vós" (Jo 15,20).

14. E Se vos perseguirem em uma cidade, fugi para outra (cfr. Mt 10,23).

15. Bem-aventurados sois (Mt 5,11) quando os homens vos odiarem (Lc 6,22) e vos amaldiçoarem (Mt 5,11) e vos perseguirem (cfr. l.c.) e vos separarem e e exprobarem e lançarem vosso nome como mau (Lc 6,22) e quando disserem todo mal contra vós, mentindo, por minha causa (Mt 5,11).

16. Alegrai-vos nesse dia e exultai (Lc 6,23), porque muita é a vossa recompensa no céu (cfr. Mt 5,12).

17. E eu vos digo, a vós meus amigos, não vos aterrorizeis por eles (cfr. Lc 12,4),

18. E não temais os que matam o corpo (Mt 10,28) e depois não têm mais o que fazer (Lc 12,4).

19. Vêde de não vos perturbar (Mt 24,6).

20. Pois em vossa paciência pos-suireis vossas almas (Lc 21,19),

21. E quem perseverar até o fim, esse será salvo (Mt 10,22; 24,13).

Capítulo 17

Dos pregadores

1. Nenhum frade pregue contra a forma e a instituição da santa igreja e se não lhe for concedido pelo seu ministro.

2. E guarde-se o ministro de concedê-lo indiscreta-mente a alguém.

3. Mas todos os frades preguem com as obras.

4. E nenhum ministro ou pregador se aproprie do ministério dos frades ou do ofício da pregação, mas, em qualquer hora que lhe for mandado, sem nenhuma contradição deixe o seu ofício.

5. Por isso peço na caridade, que é Deus (cfr. 1Jo 4,16), a todos os meus frades pregadores, oradores, trabalhadores, tanto clérigos como leigos, que tratem de se humilhar em tudo,

6. Não gloriar-se nem gozar em si mesmos nem se exaltar interiormente por boas palavras e obras, mesmo por nenhum bem, que Deus faz ou diz ou opera neles alguma vez e por eles, segundo o que diz o Senhor: "Mas não vos alegreis nisso que os espíritos se vos submetem" (Lc 10,20).

7. E saibamos firmemente que a nós não pertencem senão os vícios e pecados.

8. E mais devemos nos alegrar quando cairmos em várias tentações (cfr. Tg 1,2) e quando suportarmos quaisquer angústias da alma ou do corpo ou tribulações neste mundo por causa da vida eterna.

9. Guardemo-nos, pois, todos os frades, de toda soberba e vanglória;

10. E guarde-mo-nos da sabedoria deste mundo e da prudência da carne (Rm 8,6);

11. Pois o espírito da carne quer e se esforça muito por ter palavras, mas pouco pelas obras,

12. E busca não a religião e a santidade no espírito interior, mas quer e deseja ter religião e santidade que apareçam fora para os homens.

13. E estes são aqueles de quem diz o Senhor: "Em verdade vos digo, receberam sua recompensa" (Mt 6,2).

14. Mas o espí-rito do Senhor quer que a carne seja morti-ficada e desprezada, vil e abjeta.

15. E se esforça pela humildade e paciência e pura e simples e verdadeira paz de espírito.

16. E sempre sobre todas as coisas deseja o di-vino temor e a divina sabedoria e o divino amor do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

17. E devolvamos todos os bens ao Senhor Deus Altíssimo e sumo e reconheçamos que todos os bens são dele e demos graças por tudo a ele, de quem todos os bens procedem.

18. E o mesmo altíssimo e sumo, o único verdadeiro Deus tenha e lhe sejam tributadas todas as honras e reverências, todos os louvores e bênçãos, todas as graças e glória, de quem é todo bem, o único que é bom (cfr. Lc 18,19).

19. E quando vemos ou ouvimos dizer ou fazer o mal ou blasfemar a Deus, nós bendigamos e façamos o bem, e louvemos a Deus (cfr. Rm 12,21), que é bendito pelos séculos (Rm 1,25).

Capítulo 18

Como os ministros devem reunir-se

1. Cada ministro pode reunir-se cada ano com seus frades, onde quer que lhes aprouver, na festa de São Miguel arcanjo, para tratar das coisas que pertencem a Deus.

2. Mas todos os ministros que estão nas regiões ultramarinas e ultramontanas, uma vez cada três anos, e os outros ministros uma vez por ano, venham ao capítulo de Pentecostes junto à igreja de Santa Maria da Porciúncula, a não ser que pelo ministro e servo de toda a fraternidade tenha sido determinado diferentemente.

Capítulo 19

Que os frades vivam catolicamente

1. Todos os frades sejam católicos, vivam e falem catolicamente.

2. Mas se alguém se desviar da fé e vida católica de palavra ou fato e não se emendar, seja absolutamente expulso de nossa fraternidade.

3. Tenhamos todos os clérigos e todos os religiosos como senhores nas coisas que dizem respeito à salvação da alma e não desviarem da nossa religião; e veneremos no Senhor sua ordem e ofício e ministério.

Capítulo 20

Da penitência e da recepção do Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo

1. E meus frades benditos, tanto clérigos como leigos, confessem seus pecados a sacerdotes de nossa religião.

2. E se não puderem, confessem-nos a outros sacerdotes discretos e católicos, sabendo firmemente e pensando que, de quaisquer sacerdotes católicos receberem penitência e absolvição, serão sem dúvida absolvidos desses pecados se procurarem cumprir humilde e devotamente a penitência que lhes for imposta.

3. Mas, se então não puderem ter sacerdote, confessem-se com um irmão seu, como diz o apóstolo Tiago: "Confessai um ao outro vossos pecados" (Tg 5,16).

4. Mas nem por isso deixem de recorrer ao sacer-dote, porque o poder de ligar e desligar só aos sacerdotes foi concedido.

5. E assim contritos e confessados recebam o corpo e o sangue de nosso Senhor Jesus Cristo com grande humildade e veneração, lembrando que o Senhor diz: Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna (cfr. Jo 6,54); 6 e "Fazei isso para minha comemoração" (Lc 22,19).

Capítulo 21

Do louvor e exortação que todos os frades podem fazer

1. E todos os meus frades podem anunciar esta ou semelhante exortação e louvor, quando lhes aprouver, entre quaisquer pessoas, com a bênção de Deus:

2 .Temei e honrai, louvai e bendizei, dai graças (1Ts 5,18) e adorai o Senhor Deus onipotente na trindade e na unidade, Pai e Filho e Espírito Santo, criador de tudo.

3. Fazei penitência (cfr. Mt 3,2), fazei frutos dignos de penitência (cfr. Lc 3,8), porque logo morreremos.

4. “Dai e vos será dado" (Lc 6,38).

5 Perdoai e vos será perdoado (cfr. Lc 6,37).

6. E se não perdoardes aos homens os seus pecados (Mt 6,14), o Senhor não perdoará os vossos pecados (Mc 11,25); confessai todos os vossos pecados (cfr. Tg 5,16).

7. Bem-aventurados os que morrem em penitência, porque estarão no reino dos céus.

8. Ai dos que não morrem em penitência, porque serão filhos do diabo (1Jo 3,10), cujas obras fazem (cfr. Jo 8,41) e irão para o fogo eterno (Mt 18,8; 25,41).

9. Guardai-vos e abstei-vos de todo mal e perseverai até o fim no bem. 

Capítulo 22

Da admoestação dos frades

1. Atendamos todos os frades, porque diz o Senhor: Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam (cfr. Mt 5,44 par.),

2. porque nosso Senhor Jesus Cristo, cujos vestígios devemos seguir (cfr. 1Pd 2,21), chamou seu traidor de amigo (cfr. Mt 26,50) e se ofereceu espontaneamente aos que o crucificaram.

3. São, portanto, amigos nossos todos aqueles que injustamente nos causam tribulações e angústias, vergonhas e injúrias, dores e tormentos, martírio e morte;

4. Aos quais devemos amar muito, porque temos a vida eterna por aquilo que nos causam.

5. E tenhamos ódio a nosso corpo com seus vícios e pecados; porque, vivendo carnalmente, quer o diabo arrebatar-nos o amor de Jesus Cristo e a vida eterna e perder a si mesmo com todos no inferno;

6. Porque nós por nossa culpa somos fedidos, miseráveis e contrários ao bem, mas prontos para o mal e voluntariosos, porque, como diz o Senhor no evangelho:

7. Do coração procedem e saem os maus pensamentos, adultérios, fornicações, homicídios, furtos, avareza, maldade, dolo, impudicícia, inveja, falsos testemunhos, blasfêmias, insensatez (cfr. Mc 7,21-23; Mt 15,19).

8. Todos estes males procedem de dentro, do coração do homem (cfr. Mc 7,73) e "são essas coisas que mancham o homem" (Mt 15,20).

9. Mas agora, depois que deixamos o mundo, nada temos que fazer senão seguir a vontade do Senhor e agradar-lhe.

10. Guardemo-nos muito de não ser terra junto do caminho, empedrada e espinhosa, conforme diz o Senhor no evangelho:

11. A semente é a palavra de Deus (Lc 8,11).

12. Mas a que caiu junto do caminho e foi pisada (cfr. Lc 8,5), estes são os que ouvem (Lc 8,12) a palavra e não entendem (cfr. Mt 13,19);

13. E logo (Mt 4,15) vem o diabo (Lc 8,12) e arrebata (Mt 13,19), o que foi semeado no coração deles (Mc 4,15) e tira a palavra dos seus corações, para que, crendo, não se salvem (Lc 8,12).

14. A que caiu em terra pedregosa (cfr. Mt 13,20) são aqueles que, quando ouvem a palavra, logo com alegria (Mc 4,16) a recebem (Lc 8,13),

15. Mas quando vem a tribulação e perseguição por causa da palavra, imediatamente se escandalizam (Mt 13,21) e estes não têm raiz em si mes-mos, mas são temporários (cfr. Mc 4,17), porque crêem por um tempo e no tempo da tentação retrocedem (Lc 8,13).

16. Mas a que caiu entre espinhos, estes são (Lc 8,14) os que ouvem a palavra de Deus (cfr. Mc 4,18), e a preocupação (Mt 13,22) e as fadigas (Mc 4,19) deste século e o engano das riquezas (Mt 13,22) e as concupiscências acerca das outras coisas, entrando sufocam a palavra e tornam-se sem fruto (Mc 4,19).

17. Mas a que em terra boa (Lc 8,15) foi semeada (Mt 13,23), são aqueles que, ouvindo a palavra com coração bom e ótimo (Lc 8,15) a entendem e (cfr. Mt 13, 23) retêm e produzem fruto na paciência (Lc 8,15).

18. E por isso nós, frades, como diz o Senhor, deixemos os mortos enterrarem os seus mortos (Mt 8,22).

19. E guardemo-nos muito da malícia e sutileza de satanás, que quer que o homem não tenha sua mente e coração voltados para Deus.

20. E dando voltas deseja levar o coração do homem sob aparência de alguma mercê ou ajuda e sufocar da memória a palavra e os preceitos do Senhor e quer cegar o coração do homem por meio dos negócios seculares e dos cuidados e aí habitar, como diz o Senhor:

21. Quando o espírito imundo sai do homem, anda por lugares áridos e secos (Mt 12,43) buscando des-canso; e não achando diz:

22. Voltarei para minha casa, de onde saí (Lc 11,24).

23. E vindo encontra-a vazia, varrida e enfeitada (Mt 12,44).

24. E vai e toma outros sete espíritos piores do que ele e, entrando, moram aí, e o fim daquele homem fica pior do que o começo (cfr. Lc 11,26).

25. Por isso, irmãos todos, guardemo-nos muito, para que sob a aparência de alguma mercê, ou obra ou ajuda, não percamos ou tiremos do Senhor nossa mente e coração.

26. Mas na santa caridade, que é Deus (cfr. 1Jo 4,17), rogo todos os frades, tanto ministros como os outros, afastado todo impedimento e posposto todo cuidado e solicitude, no melhor modo que puderem, façam servir, amar, honrar e adorar o Senhor Deus de coração limpo e mente pura, que ele busca acima de tudo,

27. e sempre façamos aí habitação e morada (cfr. Jo 14,23) para aquele que é o Senhor Deus onipotente, Pai e Filho e Espírito Santo, que diz: Vigiai, pois, orando todo o tempo, para serdes tidos como dignos de escapar de todos os males que virão e estar diante do Filho do homem (Lc 21,39).

28. E quando estais em pé para orar (Mc 11,25) dizei (Lc 11,2): Pai nosso que estás nos céus (Mt 6,9).

29. E adoremo-lo de coração puro, porque é preciso orar sempre e não desfalecer (Lc 18,1);

30. pois o Pai busca tais adoradores.

31. Deus é espírito e os que o adoram é preciso que o adorem em espírito e verdade (cfr. Jo 4,23-24).

32. E recorramos a ele como ao pastor e bispo de nossas almas (1Pd 2,25), que diz: Eu sou o bom pastor, que apascento minhas ovelhas e por minhas ovelhas exponho minha alma.

33. Todos vós sois irmãos;

34. E não chameis pai entre vós sobre a terra, pois um só é o vosso Pai, que está nos céus.

35. Nem chameis mestres; pois um é o vosso mestre, que está nos céus (cfr. Mt 23,8-10).

36. Se permanecerdes em mim e minhas palavras permanecerem em vós, tudo que quiserdes, pedi e vos será feito (Jo 15,7).

37. Onde quer que haja dois ou três congregados no meu nome, aí estou no meio deles (Mt 18,20).

38. Eis que eu estou convosco até a consumação dos séculos (Mt 28,20).

39. As palavras que vos disse são espírito e vida (Jo 14,6).

40. Eu sou o caminho, a verdade e a vida (Jo 14,6).

41. Mantenhamos portanto as palavras, a vida e a doutrina e o seu santo evangelho, que dignou-se rogar por nós ao seu Pai e manifestar-nos seu nome dizendo: Pai, clarifica o teu nome (Jo 12,28) e clarifica o teu Filho, para que o Filho te clarifique (Jo 17,1).

42. Pai, manifestei o teu nome aos homens, que me deste (Jo 17,6); porque as palavras que me deste, dei a eles; e eles te aceitaram e conheceram, porque de ti saí e creram que tu me enviaste.

43 .Eu rogo por eles, não pelo mundo,

44. mas por aqueles que me deste, porte são teus e tudo que é meu é teu (Jo 17,8-10).

45. Pai santo, guarda-os no teu nome, os que me deste, para que eles sejam um assim como nós (Jo 17,11).

46. Falo estas coisas no mundo, para que tenham gozo em si mesmos.

47. Eu lhes dei a tua palavra; e o mundo os odiou, porque não são do mundo, como eu também não sou do mundo.

48. Não rogo que os tires do mundo, mas que os guardes do mal (Jo 17,13-15).

49. Glorifica-os na verdade.

50. Tua palavra é verdade.

51. Como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo.

52. E por eles santifico a mim mesmo, para que eles sejam santificados na verdade.

53. Não rogo por eles somente, mas também por aqueles que vão crer em mim por causa da palavra deles (cfr. Jo 17, 17-20), para que sejam consumados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como me amaste (Jo 17,23).

54. E os farei conhecer teu nome, para que o amor com que me amaste esteja neles e eu neles (cfr. Jo 17,26).

55. Pai, os que me deste, quero que onde eu estou também eles estejam comigo, para verem a tua claridade (Jo 17,24) no teu reino. Amém.

Capítulo 23

Oração e ação de graças

1. Onipotente, santíssimo, altíssimo e sumo Deus, Pai santo (Jo 17,11) e justo, Senhor rei do céu e da terra (cfr. Mt 11,25), por ti mesmo te damos graças, porque por tua santa vontade e por teu único Filho com o Espírito Santo criaste todas as coisas espirituais e corporais e nós, feitos à tua imagem e semelhança, colocaste no paraíso (cfr. Gn 1,26).

2. E nós caímos por nossa culpa.

3. E te damos graças porque, assim como por teu Filho nos criaste, assim por teu santo amor, com que nos amaste (cfr. Jo 17,26), fizeste que ele, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, nascesse da gloriosa sempre virgem beatíssima Santa Maria, e quiseste que nós, cativos, fôssemos redimidos por sua cruz e sangue e morte.

4. E te damos graças porque o teu próprio Filho virá na glória de sua majestade para colocar no fogo eterno os malditos que não fizeram penitência e não te conheceram, e dizer a todos que te conheceram e adoraram e te serviram na penitência: Vinde, benditos de meu Pai, recebei o reino, que está preparado para vós desde a origem do mundo (cfr. Mt 25,34).

5. E porque todos nós, miseráveis e pecadores, não somos dignos de te nomear, imploramos suplicantes que nosso Senhor Jesus Cristo, teu Filho dileto, em quem bem te comprazeste (cfr. Mt 17,5), junto com o Espírito Santo Paráclito te dê graças, como agrada a ti e a ele, por todos, ele que sempre te basta para tudo, por quem tantas coisas nos fizeste. Alelúia.

6. E a gloriosa mãe beatíssima Maria sempre Virgem, o bem-aventurado Miguel, Gabriel e Rafael e todos os coros dos bem-aventurados serafins, querubins, tronos, dominações, principados, potestades, virtudes, anjos, arcanjos, o bem-aventurado João Batista, João Evangelista, Pedro, Paulo e os bem-aventurados patriarcas, profetas, Inocentes, apóstolos, evangelistas, discípulos, mártires, confessores, virgens, bem-aventurados Elias e Enoque, e todos os santos, que foram e serão e são, por teu amor humildemente pedimos, que, como te agrada, por essas coisas te dêem graças, sumo Deus verdadeiro, eterno e vivo, com teu Filho caríssimo nosso Senhor Jesus Cristo e o Espírito Santo Paráclito nos séculos dos séculos (Ap 19,3). Amém. Alelúia (Ap 19,4).

7. E a todos os que querem servir ao Senhor Deus dentro da santa Igreja católica e apostólica, e a todas as ordens seguintes: sacerdotes, diáconos, subdiáconos, acólitos, exorcistas, leitores, ostiários e a todos os clérigos; e a todos os religiosos e religiosas; a todos os conversos e postulantes, pobres e necessitados, reis e príncipes, trabalhadores e agricultores, servos e senhores; todas as virgens e continentes, e casadas; leigos, homens e mulheres, todas as crianças, adolescentes, jovens e velhos, sãos e enfermos, todos os pequenos e grandes, e todos os povos, gentes, tribos e línguas (cfr. Ap 7,9), todas as nações e todos os homens de qualquer lugar da terra, que são e serão, pedimos humildemente e suplicamos, nós, todos os frades menores, servos inúteis (Lc 17,10), que todos perseveremos na verdadeira fé e penitência, porque de outra maneira ninguém pode salvar-se.

8. Amemos todos com todo coração, com toda alma, com toda mente, com toda força (cfr. Mc 12,30) e fortaleza (cfr. Mc 12, 33), com todo entendimento, com todas as forças (cfr. Lc 10,27), todo esforço, todo afeto, todas as entranhas, todos os desejos e vontades o Senhor Deus (Mc 12,30 par.), que nos deu e nos dá a nós todos todo o corpo, toda a alma e toda a vida, que nos criou, remiu e só por sua misericórdia vai salvar (cfr. Tb 13,5), que a nós miseráveis e míseros, pútridos e fétidos, ingratos e maus, fez e faz todo bem.

9. Nada mais, portanto, desejemos, na-da mais queiramos, nada mais nos agrade e deleite a não ser o Criador e Redentor e Salvador nosso, único verdadeiro Deus, que é o pleno bem, todo bem, o bem inteiro, verdadeiro e sumo bem, que só ele é bom (cfr. Lc 18,19), manso, suave e doce, que só ele é santo, justo, verdadeiro, santo e reto, que só ele é benigno, inocente, puro; de quem e por quem e em quem (cfr. Rm 11,36) é todo perdão, toda graça, toda glória de todos os penitentes e justos, de todos os bem-aventurados que gozam juntos no céu.

10. Nada, pois, impeça, nada se interponha;

11. Em toda parte nós todos em todo lugar, em toda hora e em todo tempo, todos os dias e continuamente creiamos veraz e humildemente e tenhamos no coração e amemos, honremos, adoremos, sirvamos, louvemos e bendigamos, glorifiquemos, e sobre-exaltemos, magnifiquemos e demos graças ao altíssimo e sumo Deus eterno, trindade e unidade, Pai e Filho e Espírito Santo, criador de tudo e salvador de todos que nele crêem e esperam e o amam, que sem início e sem fim imutável, invisível, inenarrável, inefável, incompreensível, inescrutável (cfr. Rm 11,33), bendito, louvável, glorioso, sobre-exaltado (cfr. Dn 3,52), sublime, excelso, suave, amável, deleitável e todo mais desejável do que todas as coisas pelos séculos. Amém.

Epílogo

Conclusão

1. Em nome do Senhor! Rogo a todos os meus frades que aprendam o teor e o sentido das coisas que estão escritas nesta vida para salvação de nossa alma e que freqüentemente as tragam à memória.

2. E imploro a Deus que ele, que é onipotente, trino e uno, abençoe todos os que ensinam, aprendem, conservam, recordam e praticam estas coisas todas as vezes que repetem e fazem o que aí está escrito para salvação de nossa alma,

3. E rogo a todos com o ósculo dos pés, que as amem muito, guardem e conservem.

4. E da parte de Deus onipotente e do senhor papa e por obediência, eu, Frei Francisco, mando firmemente e imponho que das coisas que estão escritas nesta vida, ninguém suprima ou lhes acrescente algum escrito nela mesma (cfr. Dt 4,2; 12, 32) nem os frades tenham outra regra.

 

5. Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio e agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém.

Jornal Terra Nova

Santo do dia