Carta 3 a Inês de Praga

Introdução

Esta carta deve ser de 1238. Aos 9 de fevereiro de 1237, Gregório IX publicou o decreto "Licet velut ignis", impondo a todos os mosteiros da Ordem de São Damião total abstinência de carne, a exemplo dos cistercienses. A confusão foi grande. Sabendo que em São Damião as normas eram diferentes, Inês pede a orientação de Clara. Mas a Santa parece estar incluindo outro assunto, relacionado com a bula papal "Pia credulitate tenentes", de 15 de abril de 1238, em que Gregório IX tinha aceitado a renúncia de Inês ao hospital de São Francisco para se entregar com suas Irmãs à vida de contemplação. Clara se aprofunda em magníficas considerações sobre a vida de contemplação e de pobreza e sobre sua missão na Igreja. Em todo caso, a carta deve ser anterior ao conhecimento de Clara de que, no dia 11 de maio de 1238, Gregório IX, impôs a Inês a regra hugoliniana. Antes disso, ela observou as normas de São Damião e até pediu uma Regra própria, para a qual queria as orientações de São Francisco sobre o jejum.

Carta 3 a Inês de Praga

1,2 Clara, humílima e indigna servidora de Cristo e serva das damas pobres, à reverendíssima senhora em Cristo, sua irmã Inês, a mais amável de todos os mortais, irmã do ilustre rei da Boêmia e, agora, irmã e esposa (cfr. Mt 12,50; 2Cor 11,2) do sumo Rei dos céus. Desejo-lhe as alegrias da salvação e o melhor que se possa desejar no autor da salvação (cfr. Hb 2,10).

3 Tenho a maior alegria e transbordo com a maior exultação no Senhor ao saber que está cheia de vigor, em boa situação e obtendo êxitos no caminho iniciado para obter o galardão celeste.

4 Ouvi dizer e estou convencida de que você completa maravilhosamente o que falta em mim e nas outras Irmãs para seguir os passos de Jesus Cristo pobre e humilde.

5 Eu me alegro de verdade, e ninguém vai poder roubar-me esta alegria,

6 porque já alcancei o que desejava abaixo do céu: vejo que você, sustentada por maravilhosa prerrogativa de sabedoria da própria boca de Deus, já suplantou impressionante e inesperadamente as astúcias do esperto inimigo: o orgulho que perde a natureza humana, a vaidade que torna estultos os corações dos homens.

7 Vejo que são a humildade, a força da fé e os braços da pobreza que a levaram a abraçar o tesouro incomparávelescondido no campo do mundo e dos corações humanos, com o qual compra-se (cfr. Mt 13,44) aquele por quem tudofoi feito (cfr. Jo 1,3) do nada.

8 Eu a considero, num bom uso das palavras do Apóstolo, auxiliar do próprio Deus, sustentáculo dos membros vacilantes de seu corpo inefável.

9 Quem vai me dizer, então, para não exultar com tão admiráveis alegrias?

10 Por isso, exulte sempre no Senhor (cfr. Fp 4,4) também você, querida.

11 Não se deixe envolver pela amargura e o desânimo, senhora amada em Cristo, gozo dos anjos e coroa (Fp 4,1) das Irmãs.

12 Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da glória (cfr. Heb 1,3).

13 Ponha o coração na figura da substância (cfr. Heb 1,3) divina e transforme-se inteira, pela contemplação, na imagem (cfr. 2Cor 3,18) da divindade.

14 Desse modo também você vai experimentar o que sentem os amigos quando saboreiam a doçura escondida(cfr. Sl 30,20), que o próprio Deus reservou desde o início para os que o amam.

15 Deixe de lado tudo que neste mundo falaz e perturbador prende seus cegos amantes e ame totalmente o que se entregou inteiro por seu amor,

16 aquele cuja beleza o sol e a lua admiram, cujos prêmios são de preciosidade e grandeza sem fim (Sl 144,3).

18 Prenda-se à sua dulcíssima Mãe, que gerou tal Filho queos céus não podiam conter (cfr. 3Re 8,27),

19 mas que ela recolheu no pequeno claustro do seu santo seio e carregou no seu regaço de menina.

20 Quem não tem horror das insídias do inimigo do homem que, pela tentação de glórias passageiras e falazes, tenta aniquilar o que é maior do que o céu?

21 Pois é claro que, pela graça de Deus, a mais digna das criaturas, a alma do homem fiel, é maior do que o céu.

22 Pois os céus, com as outras criaturas, não podem conter(cfr. 2Par 2,6; 3Rs 8,27) o Criador: só a alma fiel é sua mansão e sede. E isso só pela caridade que os ímpios não têm, pois,

23 como diz a Verdade: Quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei (Jo 14,21), e nós viremos a ele e nele faremos nossa morada (Jo 14,23).

24 Assim como a gloriosa Virgem das virgens o trouxe materialmente,

25 assim também você, seguindo seus passos (cfr. 1Pd 2,21), especialmente os da humildade e pobreza, sem dúvida alguma, poderá trazê-lo espiritualmente em um corpo casto e virginal.

26 Você vai conter quem pode conter você e todas as coisas(cfr. Sb 1,7; Cl 1,17), vai possuir algo que, mesmo comparado com as outras posses passageiras deste mundo, será mais fortemente seu.

27 Nisso enganam-se certos reis e rainhas deste mundo:

28 sua soberba pode chegar ao céu e sua cabeça pode tocar as nuvens mas, no fim, serão reduzidos ao esterco (Jó 20,6-7).

29 Quanto às coisas sobre as quais você pediu a minha opinião,

30 acho que posso responder o seguinte. Você pergunta que festas nosso glorioso pai São Francisco nos aconselhou a celebrar especialmente, pensando, se entendi bem, que é possível variar os pratos.

31 Em sua prudência você certamente saberá que, com exceção das fracas e das doentes, para quem exortou-nos e até mandou usar de toda discrição possível com respeito a qualquer alimento,

32 nenhuma de nós que fosse sadia e forte deveria comer senão alimentos quaresmais, tanto nos dias feriais como nos festivos, jejuando todos os dias,

33 com exceção dos domingos e do Natal do Senhor, em que deveríamos comer duas vezes.

34 Também nas quintas-feiras, em tempo ordinário, fica à vontade de cada uma; quem não quiser não é obrigada a jejuar.

35 Mas nós, sadias, jejuamos todos os dias, exceto nos domingos e no Natal.

36 Mas não somos obrigadas ao jejum, de acordo com um escrito do beato Francisco, por todo o tempo da Páscoa e nas festas de Santa Maria e dos santos Apóstolos, a não ser que essas festas caiam em sexta-feira.

37 Mas, como disse, as que somos sãs e fortes sempre comemos alimentos quaresmais.

38 Entretanto, como não temos carne de bronze nem a robustez de uma rocha (Jó 20,6-7),

39 pois até somos frágeis e inclinadas a toda debilidade corporal,

40 rogo e suplico no Senhor, querida, que deixe, com sabedoria e discrição, essa austeridade exagerada e impossível que eu soube que você empreendeu,

41 para que, vivendo, sua vida seja louvor (cfr. Is 38,19; Sir 17,27)do Senhor, e para que preste a seu Senhor um culto racional (cfr. Rom 12,1) e seu sacrifício seja sempre temperado com sal (Lev 2,13; Col 4,6). 

42 Eu lhe desejo tudo de bom no Senhor, como desejo a mim mesma. Lembre-se de mim e de minhas Irmãs em suas santas orações.

Jornal Terra Nova

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